Prosas
de passagem
Ele sabia que se parasse teria de entrar. A casa dela, impecavelmente arrumada exalaria um aroma agradável a dias memoráveis. Deu por si já no elevador, a imaginar os sofás verde água (mesmo não tento bem a noção de como raio é essa cor) e as cortinas brancas, de um branco ainda mais espectacular do que o dos anúncios de detergentes. Reviu o corpo dela, espalhado pelo sofá, as costas sobre o braço do sofá, o corpo solto dando uma estranha ilusão de conforto. Fechou os olhos e sentiu aquele calor confortável de guardá-la nos braços e perder os dedos entre os seus cabelos.

1º andar. A cozinha também branca, quase um paraíso doméstico. Os pratos de cores garridas a escorrer, os pratos que são todos iguais e não têm um único risco, à espera de serem arrumados. A mesa de pinho limpa, as cadeiras arrumadas e um ligeiro cheiro a torradas do pequeno-almoço.

2º andar. O quarto dela, que nunca chegou a ser deles, o quarto impecável dela. Livros de todos os tamanhos empilhados, encostados, metodicamente arrumados. O corpo dela ainda morno, a cama a cheirar a sono, os lábios em repouso, os cabelos ordenadamente desalinhados e a sua pele - quantas vezes já teria ela percorrido o seu corpo esguio, tão bem desenhado. Quantas mãos depois da dele já o teriam feito? Nenhumas, como ele nenhumas, era capaz de jurar.

Ele sabe que ela ainda não lhe partiu e no 3º andar bate à porta. A segunda porta à esquerda que ela pintou. A única porta com desenhos. O senhorio não sabe nem quer saber, nunca lá apareceu e ela sabe que não há de aparecer. Não se exalta então quando lhe batem à porta. A porta bonita, lá dentro, o chão de madeira e os seus pés delicados saltitam na sua direcção. Ele só quer saber como ela está. Só quer saber se os seus olhos escuros ainda são os olhos iguais mas tão diferentes de todos os outros que alguma vez conheceu. O nariz, um pouco torto e desproporcional é o toque de perfeição imperfeita que só tudo o que é dela tem.

(silêncio)

Ela vem à porta. Os cabelos delicadamente despenteados fazem-no pensar que não veio em boa altura. Os olhos vermelhos, não são os mesmos olhos, nunca lhe conheceu olhar tão desesperado. A casa dela, nota agora que a casa está um verdadeiro caos e que não cheira sequer a torradas. Ela cheira a falta de sono, tão bonita na mesma. Sem aviso abraça-o e chora, ele sente-lhe o corpo a perder as forças. Sem a soltar entra, fecha a porta enquanto a ampara e depois pousa-a delicadamente no chão, encostada à porta desenhada, tantos sonhos nela desenhados. Ela soluça e abraça-o com força tombando a cabeça no seu ombro. Ele de joelhos à sua frente sussurra que está tudo bem, beija-lhe os cabelos e mesmo não sento de chorar chora com ela.
 
Lidda @ 21-05-2007 1:36:41
Comentários
@ 11-06-2007 6:20:37
Citar   Impróprio?
Passagens assim... Liddianas -)
@ 27-05-2007 1:56:29
Citar   Impróprio?
merci senhor pedro
@ 26-05-2007 22:52:59
Citar   Impróprio?
Gostei bastante, boa escrita. ;)
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