Prosas
Um homem chamado nada...
Crónica

Lembro-me agora que a sua única companhia era um cão, um simpático e pequenito rafeiro.

Lá estava o velho , na estação, entre cartões, tapado com cobertores ao pé da máquina de alugar videos.Nunca tinha reparado nele a não ser quando fui lá.Estava muito acelarada, queria despachar-me, porém a cassete tardava em aperecer.Respirei fundo...olhei para o lado, na esperança de conseguir ganhar alguma calma, no entanto não foram os meus actos que tiveram esse efeito, mas si o que os meus olhos testemunharam, um homem que a nada pertence a dar de comida ao seu, provável, fiel e único amigo, um pobre rafeiro.Aquilo que ainda me tocou mais, foi o facto de saber, de fonte segura, que o velhote apesar de não ter dinheiro, quando o arranjava a primeira pessoa a quem comprava comida era ao seu velho companheiro, que estava sempre garantido.Tinha o seu prato, a sua comida e dormia juntamente com aquele sem abrigo, naquela estação, com aquele cobertor..Simples,velho, frio de estar tão roto, tão gasto.Por incrivel que pareça parece que ainda lhe sinto o cheiro, lhe vejo a cor...
Recordo-me perfeitamente de como era o "homem da máquina",da expressão do seu rosto, do seu olhar, das suas mãos, é tão certo como estar aqui a recorrer á minha tão celébre caixinha de recordações e estar a escrever sobre ele.
Tinha o cabelo grisalho tal como a sua enorme barba.O seu olhar, esse, era imensamente vazio de tanta amargura, triste por lhe teram negado um único direito, viver!Tenho a noção de que a partir daqueles pequenos olhinhos davam para ver tão grandes e melancólicos sentimentos, aliás nem era preciso "atravessar" o olhar do velhinho para se perceber tantas coisas, bastava olhar simplesmente para a sua face, preta de tanta sujidade e com rugas, sem dúvida alguma, em abundancia.A partir dela também se conseguia ver a angústia, o quanto estava perdido e se tentava achar no meio daquela mistura de sentimentos, pessoas...Pessoas que eram tudo e não lhe davam nada, não lhe diziam nada e insistiam constantemente em fazê-lo sentir-se um nada...
 
reticencias @ 01/04/2006 00:00:00
Comentários
@ 01/04/2006 00:00:00
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Obrigada pelos comentários..aos dois, á minha poetisa preferida e ao meu grande e recente amigo se assim te posso chamar Zica!
@ 01/04/2006 00:00:00
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és tão kida =)
@ 01/04/2006 00:00:00
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Sinceramente, não li mas parece muito bom pelos comentários![8
@ 01/04/2006 00:00:00
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É um bocadinho triste, mas um retrato verdadeiro que se aplica a tantos hoje em dia, infelizmente. Já estava com saudades de te ler!
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