Eis quem sou...
Quem sou?
Como sou?
Sei lá eu quem sou ou, como sou!
Não sei!
Mas… também não me sinto, tentada a dizer-to.
Estou farta de mistérios, de estranhos enfadados,
De sonhos cruzados, pela zombaria do destino.
De mim, não vou falar!
Nem sequer vou comentar,
o ser, guerreira de causas perdidas,
Um rosto sem expressão,
Sem casa , nem abrigo.
E se algum dia eu tivesse que te dizer como sou,
Teria de pedir, um empréstimo ao poeta para te dizer:
_Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos
invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada à parte isso,
tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Implorei-te que não me perguntasses o que fui… Mas insistes!
És inoportuno!
Obrigas-me a dívidas, que não desejo…
O poeta não me vai perdoar!
Queres realmente saber o que fui...
Eu digo-te!
Contrai novo empréstimo, na palavra do poeta, para te dizer:
_Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era
e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Endividada ao máximo, com o poeta Álvaro de Campos.