Prosas
o sol (só) para ti.
Naquela manhã a água a correr na torneira foi uma morte leve. A água correu na torneira sem se saber morta, leve. Naquela manhã, a água foi uma sucessão de gotas leves. Correu da torneira, numa manhã qualquer, uma manhã sem tempo. Nesse avesso de tempos houve um sol a brilhar melhor, leve. Houve um sol que correu, junto da água. Foi o mesmo sol que aqueceu a água morta, fria: ficou quente.  Naquela manhã o copo esqueceu-se dos chinelos junto da cama e, de pés descalços, correu a socorrer a leveza da água. Mas foi o lavatório, o amparo da água fria e morna, da água fria e morta. Naquela manhã, houve um eco remoto da água a escoar pelo lavatório, a gritar, porque morreu: leve. Houve um eco de luz, um travo de brilho no sabor da água. Quando a última gota de água se precipitou, o copo ainda estava no corredor, a tentar erguer o corpo de metal no chão frio, pesado.  E a água, leve, estreitou-se no cano roto e o lavatório ficou feliz: tinha o sol só para ele...
 
entreaspas @ 20-01-2008 17:39:25
Comentários
@ 22-01-2008 15:48:15
Citar   Impróprio?

bastante curioso.

este texto levou-me a querer ler ate ao fim, nao sei porquê...

muito bem!!!

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