Prosas
desabafos de desespero
Debato-me com uma angústia cortante que não consigo explicar. A angústia do tempo que passou depressa demais, sem que tivesse dado por ele, de um tempo que passou de forma absurdamente diferente do que tinha imaginado.
Lembro-me de estar no Secundário. Lembro-me que na altura era feliz (como nunca fui antes disso e não sei se voltarei a ser). Lembro-me que sabia que era feliz, embora não tivesse absoluta consciência disso ou pensasse que ainda poderia ser mais. E então, no auge dessa felicidade possível, acomodada na rotina, mas não suficientemente esmagada pela normalidade para ser frustrante, fazia planos, rigorosamente calendarizados, quase como se tivesse a certeza de que tudo aquilo era possível ou iria mesmo acontecer. Acho que sempre tive “consciência implícita” de muito do que planeei era utópico, mas não queria assumir essa consciência e, genuinamente, pensava que algumas coisas seriam mesmo possíveis.
Curiosamente (ou não) nesses planos só havia lugar para o sucesso. Nos mais diversos formatos, nas mais diversas situações, os sucessos multiplicavam-se e surpreendiam-me, reclamavam-me como uma pessoa de múltiplas qualidades e vocações e aos êxitos associados ao percurso normal que uma pessoa com o meu perfil (ou com o perfil que eu ambiciona ter) poderia, legitimidade, aspirar, juntavam-se outros incrivelmente tão ou mais sensacionais.
Não sei até que ponto ia a minha esperança de que tudo aquilo era possível, mas, a somar a uma força de vontade gigantesca, sentia-me acarinhado por uma sorte generosa, que nunca me poderia deixar falhar.
O primeiro ano de faculdade foi uma espécie de prolongamento desse estado de felicidade mais ou menos utópica. Foi um ano de sucessos aparentes, que postos em perspectiva seriam irrelevantes, mas que isolei e tomei em absoluto, uma parte por desconhecimento da realidade que me circundava, outra para me agradar a mim próprio. Essa felicidade e esses sucessos, de repente, deram origem a novos sonhos que, a certo ponto, me pareceu que poderiam substituir os anteriores com idênticas possibilidades de realização.
No segundo ano conheci a realidade e sofri as primeiras grandes decepções da minha vida. A sensação de perder um sucesso que era real e que, de tão rotineiro que era, talvez não valorizasse como deveria, fez-me esquecer os outros sucessos utópicos e preocupar-me exclusivamente em recuperá-lo. Quando vi que era possível – ou quase possível – perdi-me. Passei então a viver fazendo do meu objectivo final de vida o que apenas poderia ser instrumento para objectivos futuros.
Mesmo apesar de todos os falhanços, todas as injustiças e todas as decepções que a partir de então sofri, embriagado face à realidade, passei a viver unicamente em função de um objectivo, e, sinceramente, em nenhum momento acreditei que não fosse possível.
Houve por certo alguma preguiça, alguma energia mal gasta ou algum trabalho mal planeado. Mas houve também muito trabalho eficaz, que estava sempre condenado à mediocridade de um sucesso relativo, de um sucesso razoável mas sempre a um passo do sucesso pleno. Mesmo assim continuei a acreditar.
Até que, terminado o curso, e falhado o objectivo que com ele aprendi a acalentar, tomei o primeiro grande banho de água fria. Da ressaca da sensação de falhanço, ergui-me com mais força e mais determinação que alguma vez tinha tido, disposto agora a lutar com todas as forças pelo novo objectivo e a recuperar os que tinha abandonado.
Mais uma vez, a certeza do sucesso. Uma certeza inexplicável à face do historial recente quase exclusivamente de fracassos. A certeza que me cegou, impedindo-me de pensar em alternativas e me deixa agora sem rumo depois de novo falhanço. Que me deixa sem saber o que fazer mais para conseguir os objectivos principais, ou quais devo eleger pela alternativa.

Agora de repente, parece que toda a certeza se transformou em resignação. Não é racional ser tão utópico, mas também não é racional entregar as armas restando-me ainda tantas hipóteses de lutar. Mas é isso que me sinto forçado a fazer, como se uma força invencível me arrastasse. Sei que abdicar de tudo será apenas sobreviver e que quem sobrevive não é feliz, mas parece que uma força interior me convence que não há alternativa à rendição, quando, simultaneamente, sei que não terá que ser exactamente assim.
Ultimamente já errei tanto que até temo dar qualquer passo, tomar qualquer decisão. E o pior é que não fazer nada também é agir, também é decidir. E como todas as minhas decisões recentes, é também uma decisão rumo ao fracasso.
 
ricardomtj @ 04-07-2011 22:23:05
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