Prosas
Vertigem
Desmaiei no piso 1 da madrugada com os pés frios, gelados da humidade entranhada em mim como espasmos, nos meus ouvidos, na minha voz, num cenário de palavras obcecadas e ruídos caóticos onde os pássaros não voam e a morte adormece nua debaixo das árvores. Menti poemas ao destino em jeito de desafio aos deuses, rasguei os acordes furiosamente porque estavam errados, eles sempre estiveram errados, e eu rio, rio deles porque me fazem cócegas nos pés frios e nunca falam a minha língua, e eu entendo-os mesmo assim e deixo-me levar pela canção, e eu rio porque não quero entender mais e apetece-me tanto rir e as cócegas não param e a vertigem em mim é vertiginosamente frágil. São 7h da manhã outra vez e a praia está deserta e o céu é estupidamente claro a essa hora, cheira-me a álcool que entranhei como beijos, embriago-me em palavras que já disse obcecadas, falo para pessoas estranhas que me ensinam a majestosa língua da redenção. Alucino perigosamente com passagens de textos orquestrados por mim em ti, depois olha, imagino divertida que és apenas um holograma da minha mente criado para me distrair da rotina infértil, e então eis que te consumo, bebo-te avidamente como bebo Nirvana e chávenas de café e divagações alheias e o Jazz e as telas dos outros dias e o cheiro do mar infiltrado em mim porque são drogas onde viajo enquanto posso e sinto, porque até as mais pequenas coisas me fazem renegar a irmandade televisiva da alienação do ser, porque as pessoas falam e eu compreendo tudo o que me dizem na sua língua mágica e elas não me julgam e eu amo-as, amo-as por isso, com as suas coisas simples que me fazem pensar que a vida é um presente e a morte dorme aniquilada debaixo das árvores, caída e nua para todo o sempre. E os pássaros sobrevivem e chilreiam. E a imortalidade é minha por três segundos que sejam.
 
addicted_mx @ 03-07-2007 7:32:10
Comentários
@ 06-07-2007 14:38:08
Citar   Impróprio?
Muito bom
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