Prosas
Porque prefiro o Inverno
 O frio e a humidade tomam o cenário escuro e denso, fruto da noite, cheiro a alcatrão molhado e algumas beatas perdidas. Nos lugares perdidos de um vale, junto da mais bela árvore, assiste-se a um show maqueavélico de silêncios e sentimentos perdidos. Sinto-me molhado, mas pouco incomodado com isso.  



  Emaranhados, cinzentos planos, sucessivos, foram paisagens noutros tempos. Agora, resume-se a mim, uma cortina cinética e um plano de fundo desvanecido e dificilmente reconhecível. A plenitude e o sossego instalam-se, lentos e infindáveis, sem que ninguém se atreva a fazer-lhes rosto, ou mesmo apreciá-los.

 Que é feito de nós então?

Perdidos e encubados, longe de um lugar que nos pertence, no mais intimo justo, nos labirintos nostálgicos que percorremos – fantasmas nós. Não é medo, de facto, é talvez vontade. Vontade de não ter vontade... de sentir o vazio que nos orna e que não é mais que um reflexo daquilo que somos, vazios por natureza. 

  Não vejo ninguém nas ruas. As mesmas que nos abraçam vaidosos nos dias de falso esplendor e de dissimulação da condição imaterial que carregamos desprovidos e inconscientes. Porque não vos vejo então? Quando queremos privacidade mas não queremos estar sós, fechados no nosso íntimo, que não suporta ser ouvido! É a pureza que incomoda então. Só pode ser.

  Podiam, vocês, tentar o namoro com a virgindade do inverno, a beleza que só a chuva retém; a sublimação, ou qualquer outro conceito explorado por um pseudo intelectual qualquer que vos fizesse sentir igualmente especiais. Viva o Rei! viva... ao menos saí do sofá e agradece o povo.

  Eu cá prefiro abrigar-me na noite e no frio, sem medo de estar só, jogado na inocência da água caída, envolvido nesta cortina cinzenta que me impede de ver e de ser visto. Eu cá prefiro este lugar quieto e perdido, onde estou sem ninguém, onde tudo é mais verdadeiro.
 
Allenjohnson @ 31-10-2011 23:51:36, actualizado a 03-11-2011 0:05:53
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