Por largas molduras entram, raios raios que penetram,
nas cortinas se aquietam, e a travessia chega ao fim
Luz-forma um tanto incerta, disposição entreaberta,
D’ uma estrela que disperta, vindo tal sol de meu jardim
Perdido numa sala escura longe do meu jardim
Com o amorfo que habita em mim.
Negra roupa, chão de lixo, que em mim há jacente bicho,
Atrás nocturno capricho, consagrando belo festim.
Uma vela, eu, cansada; sem sensação, dissipada
No pedestal, já, mirrada e a minha luz chega ao fim
Aqui, tal sol não mais brilha e a minha luz chega ao fim,
Com o amorfo que habita em mim.
Tudo à volta é meu espelho, e ao redor faço parelho,
Decadente sigo velho, com a pobreza que há em mim
Violino soa ao fundo, no compasso do meu mundo,
Louco símbolo moribundo, à semelhança do capim
Há muito sem vida, à semelhança do capim,
Com o amorfo que habita em mim.
Afogado em mágoas minhas, densas sombras suas vizinhas
Longe a luz de entrelinhas, querido sol de meu jardim.
E privado dessa essência, doce amarga minh’ ausência
Negligente abstinência, vivo aturdido num sem-fim
Na dualidade da luz e sombra vivo num sem-fim,
Com o amorfo que habita em mim.
Ressacado de bagaço, meu interior devasso
Teia urdida vil estilhaço, contrasta a força do motim,
Que lá fora é lampejo, força brava de um desejo
Energia que eu não vejo, ou então vejo, mas quero assim.
É o clarão do teu amor que até vejo mas quero assim
Porque o amorfo habita em mim.
São peças viscerais, massas tóxicas e outras tais,
Agentes livres radicais, que me matam mas digo sim.
E resto longe da porta, que me obsta do que importa,
Onde todo o som se aborta enquanto gasto o meu latim.
Eu não sei a lingua do amor, sou mudo como o latim
Com o amorfo que habita em mim.
Oh meu Deus! se em mim pudesse, brotar som que enobrece,
Sinuosa forma da letra, comigo esbelto manequim
Fosses tu meu guarda-fato, do primeiro ao último acto,
E eloquente em ultimato, me encapelasse em teu cetim
Tenho frio e estou inerte, quero estar em teu cetim
Porque o amorfo habita em mim.
“Abre a porta!”, diz uma voz, com um’ entoação feroz
E auto-estima de porta-voz, dirigindo-se para mim.
“Só assim terás o calor, força digna de meu amor”
“Basta!”, digo, tido em dor, “eu não quero que seja assim”
Refugiado no escuro “eu não quero que seja assim”
Porque o amorfo habita em mim.
Treva ou escuro lá rastejo, e a luz longe num gracejo
Tem-me em gozo num versejo, e eu torno-me seu festim
“Se tu jazes na penumbra, eu sou o agente da sombra
e se é a luz que t’ assombra, ‘ntão afasta-te de mim.”
“Se és – digo à luz - o escuro, então afasta-te de mim”
Porque o amorfo habita em mim.
Pergunta a luz com nobreza, “porque vives na tristeza?
Mergulhado na incerteza?”, -“Porque o amorfo habita em mim!”
“Porque choras sem despesa? E rejeitas a pureza?
Doce e bela delicadeza...”, -“Porque o amorfo habita em mim!”
“Diz-me então”, implora a luz, “porque o amorfo habita em ti?”
Torpe homúncolo quis assim.
E o meu jardim lá fora, luz maviosa não agora
Sem os raios de outrora, assim tece o acesso ao fim
De um amor desenfreado, sem chave nem cadeado
Fora louco alieano, remoto justa-se ao motim
Renuncia a devoção e agora justa-se ao motim
Além sempre até ao fim.
“S’nhor, ou s’nhora”, que me falas, “diz-me então porque te abalas
E grave silêncio instalas, vindo em vácuo sem latim”
Que possui mas não se goza, voz tua maravilhosa
Impulsão em verso ou em prosa, cessa o lânguido negro em mim
Eu o disse com prazer, “cessa o lânguido negro em mim!”
Além sempre até ao fim.
Mas já nada replicava, voz até então escrava
Que amor em mim incitava, através de meu jardim
Luz ausente em mim desbota, negro então correndo à porta
Assolado em tal derrota, distante a essência do alecrim
Impassível e distante, a essência do alecrim
Além sempre até ao fim.
Abro a porta em desespero, recursado grande erro
Visto mórbido aterro, onde em tempos foi meu jardim
Sofucado estremeço, mundo negro cheiro intenso
Morte erma que mereço, resignado grito assim:
“O amorfo habita em mim, o amorfo habita em mim!”
Além sempre... até ao fim.