Poemas
O amorfo que habita em mim
Por largas molduras entram, raios raios que penetram,

nas cortinas se aquietam, e a travessia chega ao fim

Luz-forma um tanto incerta, disposição entreaberta,

D’ uma estrela que disperta, vindo tal sol de meu jardim

Perdido numa sala escura longe do meu jardim

Com o amorfo que habita em mim.



Negra roupa, chão de lixo, que em mim há jacente bicho,

Atrás nocturno capricho, consagrando belo festim.

Uma vela, eu, cansada; sem sensação, dissipada

No pedestal, já, mirrada e a minha luz chega ao fim

Aqui, tal sol não mais brilha e a minha luz chega ao fim,
Com o amorfo que habita em mim.



Tudo à volta é meu espelho, e ao redor faço parelho,

Decadente sigo velho, com a pobreza que há em mim

Violino soa ao fundo, no compasso do meu mundo,

Louco símbolo moribundo, à semelhança do capim

Há muito sem vida, à semelhança do capim,

Com o amorfo que habita em mim.



Afogado em mágoas minhas, densas sombras suas vizinhas

Longe a luz de entrelinhas, querido sol de meu jardim.

E privado dessa essência, doce amarga minh’ ausência

Negligente abstinência, vivo aturdido num sem-fim

Na dualidade da luz e sombra vivo num sem-fim,

Com o amorfo que habita em mim.



Ressacado de bagaço, meu interior devasso

Teia urdida vil estilhaço, contrasta a força do motim,

Que lá fora é lampejo, força brava de um desejo

Energia que eu não vejo, ou então vejo, mas quero assim.

É o clarão do teu amor que até vejo mas quero assim

Porque o amorfo habita em mim.



São peças viscerais, massas tóxicas e outras tais,

Agentes livres radicais, que me matam mas digo sim.

E resto longe da porta, que me obsta do que importa,

Onde todo o som se aborta enquanto gasto o meu latim.

Eu não sei a lingua do amor, sou mudo como o latim

Com o amorfo que habita em mim.



Oh meu Deus! se em mim pudesse, brotar som que enobrece,

Sinuosa forma da letra, comigo esbelto manequim

Fosses tu meu guarda-fato, do primeiro ao último acto,

E eloquente em ultimato, me encapelasse em teu cetim

Tenho frio e estou inerte, quero estar em teu cetim

Porque o amorfo habita em mim.



“Abre a porta!”, diz uma voz, com um’ entoação feroz

E auto-estima de porta-voz, dirigindo-se para mim.

“Só assim terás o calor, força digna de meu amor”

“Basta!”, digo, tido em dor, “eu não quero que seja assim”
Refugiado no escuro “eu não quero que seja assim”

Porque o amorfo habita em mim.



Treva ou escuro lá rastejo, e a luz longe num gracejo

Tem-me em gozo num versejo, e eu torno-me seu festim

“Se tu jazes na penumbra, eu sou o agente da sombra

e se é a luz que t’ assombra, ‘ntão afasta-te de mim.”

“Se és – digo à luz - o escuro, então afasta-te de mim”

Porque o amorfo habita em mim.



Pergunta a luz com nobreza, “porque vives na tristeza?

Mergulhado na incerteza?”, -“Porque o amorfo habita em mim!”

“Porque choras sem despesa? E rejeitas a pureza?

Doce e bela delicadeza...”, -“Porque o amorfo habita em mim!”
“Diz-me então”, implora a luz, “porque o amorfo habita em ti?”
Torpe homúncolo quis assim.



E o meu jardim lá fora, luz maviosa não agora

Sem os raios de outrora, assim tece o acesso ao fim

De um amor desenfreado, sem chave nem cadeado

Fora louco alieano, remoto justa-se ao motim

Renuncia a devoção e agora justa-se ao motim

Além sempre até ao fim.



“S’nhor, ou s’nhora”, que me falas, “diz-me então porque te abalas

E grave silêncio instalas, vindo em vácuo sem latim”

Que possui mas não se goza, voz tua maravilhosa

Impulsão em verso ou em prosa, cessa o lânguido negro em mim

Eu o disse com prazer, “cessa o lânguido negro em mim!”

Além sempre até ao fim.



Mas já nada replicava, voz até então escrava

Que amor em mim incitava, através de meu jardim

Luz ausente em mim desbota, negro então correndo à porta

Assolado em tal derrota, distante a essência do alecrim

Impassível e distante, a essência do alecrim

Além sempre até ao fim.



Abro a porta em desespero, recursado grande erro

Visto mórbido aterro, onde em tempos foi meu jardim

Sofucado estremeço, mundo negro cheiro intenso

Morte erma que mereço, resignado grito assim:

“O amorfo habita em mim, o amorfo habita em mim!”



Além sempre... até ao fim.
 
Allenjohnson @ 19-11-2011 15:48:44, actualizado a 19-11-2011 16:09:29
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