Olho-me ao espelho e vejo, já, alguns vestígios… vestígios de uma vida marcada pela prepotência e pela ditadura. Sei-o porque viro as costas à imagem enantiomorfa que me traz o real e vejo-te, igual a mim, marcado, por um sistema pelo qual foste programado - sem nunca entenderes nada do programa.
Foi a infância que te trouxe, de casa ate’ casa, as rugas e as mágoas secas, incitadas pela frieza e indiferença de alguém que não deixa, aliás, nunca deixou… existir assunto que pudesse ser, eventualmente, alvo de censura. O medo e o silêncio cobriram-te como ouro, tornaram-se valores que tu, espelho meu, nutres desde sempre e tal como qualquer outro ser – infantil ate’ então – aprendeste a temer, apenas escutas, raramente falas e o pouco que dizes e’ “Sim, Senhor”.
Recorda-te, se fizeres favor, de tudo o que fizeste e representaste – não terá sido em silêncio? Caso contrário, serias tomado em posse da censura - tal como faziam com o teu pai no trabalho. Ele e’, como tu, subordinado do sistema e transporta para casa a mesma ditadura – e’ escravo e senhor e não dás conta disso.
A entidade que o assalaria fá-lo engolir, a seco, todas as desgraças e o pobre já não fala – só trabalha – assumindo a culpa de todas as falhas. O silêncio vê-se como manifesto de gratidão, pelas migalhas que recebe de alguém, dito superior, que solta aquela elocução autoritária que o caracteriza.
Vejo-te na imagem espelhada do teu progenitor, que será um eterno passivo, e tu és seu inferior – filho do sistema.