Prosas
Gota a gota no Fio da Navalha
Sentia-me no fio da navalha, literalmente.
Estava preso no chão e em cima de mim, uma navalha pendular sustida por uma tina de água com um pequeno furo. A minha condenação à morte: gota a gota. A minha acusação:ser revolucionário. Vim parar a esta prisão à uns três dias, a navalha estava agora a uns escassos trinta centímetros de mim. Fui preso pela minha imprudência, estava a uns escassos momentos da morte e continuava a rir. O meu trabalho estava feito, era indiferente a minha morte ou a minha vida.
Sentia medo, é verdade, a navalha resplandescente sustia-se instàvel sobre mim. A qualquer momento algo ou alguém podia fazê-la desabar e era o fim. num rasgo de vento seria cortado ao meio como o mercador de carne corta galinhas, vacas e porcos. O sangue fervia-me nas veias mas ria, ria como um louco que acreditava na vida depois da morte. Como se obtesse alguma vez a redenção divina! Pelo menos depois dos actos que cometi. Tinha como companhia os ratos. Bichinhos incansáveis que incessantemente roiam as cordas que me prendiam. Faziam-me cócegas quando se aproximavam da minha pele ensanguentada pelas chicoteadas, talvez fosse por isso que ria tanto.
Nasceu o dia. O calor ofuscante da luz que emanava da minúscula janela do meu cárcere incidia furioso sobre a tina de água que lentamente se deixava evaporar. As horas foram passando: gota a gota. Ao cair da noite ouviu-se um raspar violento de metal na pedra. Nem um grito, nem um único grito.
 
baguera @ 10-05-2006 22:09:15
Comentários
@ 05-06-2006 23:11:43
Citar   Impróprio?
Continua. Esse texto não pode parar por aqui... ;)
@ 13-05-2006 16:36:35
Citar   Impróprio?

Olá!
Li várias vezes este texto antes de decidir comentar, mas o facto é que compreensível para quem escreve, incompreensível ou não, para quem lê, estas gotas formam uma bela leitura! :)

Pág: 1 de 1Ant.   <<   < [ 1 ] >   >>   Seg.