Prosas
DEFEITOS - 1. O INÍCIO
Ora, isto é a história de um rapaz sozinho num lugar novo, de forças renovadas, que espera um recomeço limpo.

Esta história começa no bar/cantina da sua faculdade, um lugar amplo, creme, de janelas verde tropa grandes e seguidas, com um solzinho de meio da manhã a entrar, criando estranhos efeitos, dados pela ventoinha de ventilação acima das janelas. O mostruário em L do bar, repleto de cores, salgados dum lado, doces do outro, bebidas por baixo, as senhoras atarefadas dum lado para o outro a fazer os pedidos dos alunos que lá se encontravam há espera das suas refeições e cafés da manhã. O sequente som da ventoinha, entorpece-me a mente, ensonando-me os sentidos...

Mais uma vez, encontro-me sozinho, não porque sou anti-social, mas sim porque me enganei a ver o horário e cheguei uma hora depois do inicio da aula. Seja por preguiça ou respeito, decidi não interromper. Vejo o bar a sucessivamente se encher de caras acompanhadas de sorrisos, amizades, de amor. Ouve-se o incessar som de passos e saltos. As pessoas riem mais alto que a música no meu mp3, agora ligado. Aumento o volume há procura daquele isolamento mental a que estou habituado, ao meu porto seguro. A música. Por detrás dos sons de rock as pessoas continuam a sobrelotar o bar; em breve serei arrebatado nesta maré de felicidade.



Ewww.



Paro para ver que eu próprio, já tinha sido parte integrante dessa maré, até há bem pouco tempo. Consigo ver agora o mal que a felecidade traz, a ilusão. A ilusão é a arma mais forte para se raptarem corações.



Porque estou então sozinho?

Se sei como ser feliz, porque não iludir-me com a felicidade?

Deixar-me levar, ser raptado?

...



As perguntas que o assombram são interrompidas por um grupo que pergunta se se podia sentar na sua mesa. A onda de felicidade tinha chegado há sua praia. Acenou que sim e observou o grupinho, se é que poderia ser nominado de tal. Duas raparigas e um rapaz que parecia demasiado feminino para o seu próprio bem. Mas houve ali algo que captou a sua atenção. Estes individuos, completamente alheias há minha pessoa, há minha historia; falavam de um caso muito semelhante ao meu. Um amigo deles que terminara com a sua companheira e ela virou um pequeno monstro. Literalmente. Aparentemente ela era descendente de alguma família estranha e tinha essa habilidade. Nesta escola, todos temos uma habilidade que não é humana, ou pelo menos, que não deveria ser. Aparentemente, a evolução deu um salto em falso, sim, um salto e não um passo, um passo seria uma coisa pequena comparando , e então, a evolução estragou alguns genes pelo caminho. Todos somos exteriormente humanos. Nós misturamo-nos na população e ninguém se apercebe da nossa presença. Mas também... depois de 2012 tudo mudou. Não houve nenhum cataclismo nem mudanças drásticas na terra e no seu clima, como mostraram naquele filme “2012”. Ah! e também já passou a moda dos vampiros vegetarianos. Ainda bem!

A verdadeira mudança em 2012 foi nas pessoas. Começou uma nova era. E nós, os que temos “defeitos”, somos a prova viva disso.

A religião foi a primeira a dissecar a nossa pertença há raça humana, apelindando-nos de obras do diabo. Vá se lá imaginar. Obras do diabo! Nós não passamos do próximo passo na cadeia evulocionária. E sim, como já deves estar a pensar, nós temos que nos esconder. A Igreja começou uma caça há bruxa connosco. Foi a sua salvação, a Igreja encontrava-se num declinio vertiginoso desde a morte do Papa Bento XVI. A pouca fé deixada pelo seu legado só foi unida no aproveitamento do medo do desconhecido; e o desconhecido, somos nós.

Todos nós nascemos iguais, mas na adolescência, como sempre, as hormonas trocam-se todas e surge uma marca no nosso corpo. Esta marca determina o nosso destino, o de fugir ha cruz, e a nossa habilidade. O seu local varia sempre de pessoa para pessoa e é impossivel de remover, pois ela reaparece. A genética é teimosa sabem? A mim, a marca surgiu-me nas costas das mãos, por baixo do polegar. Um aglomerado de veias num vermelho vivo, fazem uma espécie de Y destorcido. Nada que luvas não escondam...

Em relação há minha habilidade?

Pois... tambem não sei, surgiu-me a marca, mas não a habilidade. É algo incomum, mas já relatado.

Vejam a minha sorte, no mundo dos supostos freaks, eu ainda me consigo distanciar e ser mais freak que eles.

Irónico não?

Aqui aprendemos a usar as nossas habilidades, aqui aprendemos o que os humanos aprendem nas suas escolas. Eu, estou no primeiro ano;

O meu objectivo seria poder mudar certos preconceitos que existem em torno da nossa existência. Mas esse tipo de obra fica determinada para outra altura, em que espero que seja mais facil.



Estes três continuam a sua conversa sobre a tal miuda que virou bicho e eu entretanto, decidi meter-me.



- Percebo bem o teu amigo. Disse.



Perplexa, uma das raparigas, a mais pequena, olha para mim, incrédula.

Eu, sem perceber o sua reacção, devolvo-lhe o olhar há espera de uma resposta que não surgiu. Foi o rapaz que me respondeu.



- Então? Ex complicada?

- Sim, mas a complicação mantém-se, ela ainda me tenta perseguir.

- Complicado isso, não tens nada que possas usar contra ela?

- Nope, não tenho nenhuma habilidade aparente. Ainda não apareceu.



Nisto, a outra rapariga, morena de olhos escuros, junta-se há conversa dizendo que as suas habilidades só surgiram há meses.



- Hmm, e que te calhou na rifa?

- Eu consigo influenciar!

- Wow! Isso deve dar muito jeito.

- Sim, mas nós somos imunes ás habilidades uns dos outros, pelo menos às psiquicas.

- Desconhecia isso. Já estava aqui a pensar se tinhas sido tu a fazer-me falar com vocês.

Sorri.

- Na, estás tranquilo.

Disso o rapaz. Os psiquicos só têm graça com os humanos, ahahah. Prefiro a minha skill. Eu sou supersónico.

- És um “flashado” portanto. Comentei.

- Sim, com muito gosto.

- Prazer, sou o João.

- Sou o Pedro, esta é a Sara e a pequena é a Paula.



Sorri, olhei mais uma vez para a Paula mas desta vez ela nem olhou para mim.



- Qual é o problema dela?

- Está agora a descubrir a sua habilidade. Ainda não a controla.

Respondeu a Sara, continuando.

- É um processo complicado, fazer coisas sem termos controlo sobre os nossos actos. Ela também é psiquica, ela consegue falar com as pessoas sem usar a voz. Mas como não controla ainda a projecção, só fala comigo no nosso quarto. Não a leves a mal.

- Eu não, só estava a perguntar pois podia ter algo contra mim. Parece que há pessoal que consegue ver que ainda não tenho habilidade nenhuma.

- Não te preocupes, tirando eu, eles também só tiveram as habilidades mais tarde que o normal.

- Já vi que sim. Vôces estão aqui há muito tempo?

- É o nosso segundo ano, e tu?

- Segunda semana.

- És novo por cá, como te tens ambientado?

- Bem. Vou conhecendo isto aos poucos.

- Estás alojado onde?

- Estou nas residencias, nas vivendas.

- Ehhh, o novato teve sorte hein?

Gracejou o Pedro.

- LOL. Tive, mas só hoje é que vou para lá. Estava na casa de um amigo que já aqui estudou.

- Porreiro. Vais adorar aquilo, é só assim todo o pessoal com habilidades descansado porque sabe que ali não é perseguido.

- Parece-me bem.



Fiquei calado por um segundo, imaginando o que me esperaria.

- Vai ser lendário! Acrescentei.



Olho para o telemóvel e vejo as horas.



- Bem, está na minha hora. Hora das aulinhas!

- Força força, que nós não te façamos chegar atrasado. Disse a Sara entre risos.



Despedi-me e fui há minha vida.

A faculdade corre como qualquer faculdade escola corre, aula após aula muda-se de professor e sala. Como qualquer faculdade. Como sempre a aula de ergonomia apresenta-se como a mais interessante, já que o professor coloca sempre a questão de como os objectos reagem ás nossas habilidades.

A questão de hoje tinha-me deixado a matutar. Como é que o espaço reage a alguém que é elastico? Deixa de existir uma medida minima e máxima para o quer que seja, pois a pessoa tem o tamanho que quer ter; será interessante ver as respostas do pessoal na próxima aula. Pensei nisso já a caminho de casa. Um olho na estrada, outro no meu mundo. O caminho para as residencias nao tinha sido feito, de modo algum, a pensar em carros como o meu. Um peugeotzinho, nao foi feito para estradas de pedra e esburacadas. Mas se esse seria o caminho que o levava a a um destino seguro, assim seria, e o meu menino teria que aguentar. Sintra seria a minha nova casa. Embrenhado bem no meio da serra, e orientado pelas direcções marcadas pelo director no GPS, fui dar com uma série de urbanizações feitas de pequenas vivendas brancas de um andar apenas, que davam para quatro pessoas. Pergunto ao segurança onde ficava o quarto 111, ao qual ele me respondeu que era na casa 28.

Ando as voltas até encontrar uma casa com um 28 estampado na garagem. Tinha-me calhado mesmo a sorte grande, até garagem tinha. Deixo o carro há porta para facilitar as mudanças, mesmo não sendo muita coisa, a lei do menor esforço imperou sobre mim ao fim do dia. Bato há porta, esperando mil e uma situações.



Hesitante, espera pelo abrir da porta. Passado breves segundos escuta passos rapidos e pesados, como se alguém viesse com pressa, esperando por mim. Abre me a porta um sujeito forte, de pera ligada ao bigodinho, da minha altura, de olhos claros; com uma t-shirt dos Metallica. “Pelo menos bom gosto musical tem.” Pensei para comigo.



- Olá, sou o João, tenho aqui um quarto ha minha espera. Sorri.

- Entra entra man! Eu sou o Bruno, és de que quarto mesmo?

- 111. Porquê?

- Era só pa saber. Ainda estão dois quartos vazios, daí a minha pergunta.

- Ah, ok. Podes me indicar onde é?

- Sim, segue-me.



Começa a dirigir-se para o corredor, ao que vou atras dele.



- Tão, trouxes-te muita tralha?

- Hmm, nem por isso. Mala de roupa e uma caixa com as minhas cenas.

- Fazes bem, menos trabalho tens.

- Pois, tal como eu penso, eheh.



O quarto no fundo do corredor, há direita, apresentava-se amplo. Há direita da porta o armario embutido, de portas espelhadas até ao final da parede, na quina era a entrada para o wc privado que cada quarto tinha. A mobilia estava toda disposta nas paredes, criando um espaço no meio, onde imaginei colocar uma mesa de vidro, rodeada de almofadas.

Ficaria perfeito. O quarto encontrava-se mobilidado, tal como tinha pedido. Mobilia da IKEA, Billy a ediçao limitada, o quarto estava simplesmente lindo. Branco, amplo. Tal como queria, um local pacifico para estar.



A ida ao carro para buscar as coisas deu-se entre conversa com este personagem que seria o meu colega de casa. Explicou-me como funcionavam as coisas ali, deu-me as chaves que já lhe tinham entregue, e, como ele tinha sido o primeiro a chegar, ele seria o chefe da casa, quem responderia se algo corresse mal. Era a cabeça dele que rolaria.



Rapidamente, arrumo as coisas em locais prévios, e pondero no que falta para o quarto ficar completo. A minha reflexão.

Vou para a sala, ter com o Bruno, mas este encontrava-se na cozinha a fazer uns cocktails. A cozinha, tal como o resto da casa era moderna, sem muito detalhes, formas arredondadas e clara, com uma ampla janela no fundo. Uma mesa de vidro no meio que dava para oito pessoas. Estava feito a pensar para jantares.



- Então, que tás a fazer?

- Cocktails, queres um?

- Siga, quero pois.

Sorri.

- De quê?

- Sei lá, tu é que os ‘tas a fazer, fica há escolha do barman.

Ri-me.

- Então toma lá este. Morango e vodka com um bocado de limão.

Reparo que o copo, enquanto fazia o trajecto para mim, estava a gelar sozinho.



- Ok, tu és de gelo, certo?

- Yap, pode-se dizer que sou uma pessoa fria.

Riu-se. Sorri.

- E tu?

- Ainda não sei... ainda não vi nada sabes... é um bocado triste.

- Nah, isso acontece a alguns. Eu chamo-lhes de encalhados.

- Ah bom... obrigadinho pela parte que me toca.

- Eheh, de nada... encalhado.

- Estou feito contigo, tá visto.



Riu-se,e eu ri-me. Estava visto que ia ser uma aventura estar nesta casa. Conversá-mos até terminar-mos as bebidas, enquanto me era dado a conhecer a casa onde morava. Ainda faltavam mais duas pessoas para a casa estar cheia, e muito provavelmente seriam mulheres, era crença da organização que o sistema de dois de cada sexo traria harmonia à casa, veriamos isso.

Fui por o carro na garagem e, não é que para meu espanto. Este gajo tinha-me um UMM. Jipe quadradão, óptimo para o monte. Tinha a cara dele, verdade seja dita. Um carro macisso, para um gajo macisso.

Olhando para os nossos carros notava-se logo que eramos diferentes, eu um citadino, pequeno; ele, um jipe, grande, para o mato. Com todo o reboliço e novidades já era tarde, e era hora de deitar. Despedi-me e fui para o meu quarto. Habituar-me há cama.
 
Dark_Angel @ 20-04-2010 23:37:57
Comentários
Ainda não existem comentários neste texto. Seja o(a) primeiro(a) a fazer um!