Frases
Apesar da vida insistir ...
Apesar da vida insistir em privar-me de fazer o que gosto, e me empurrar para caminhos alternativos, onde além da frustração pessoal, sinto que não aproveito completamente todas as minhas potencialidades, continuo acreditar que não temos uma vocação por acaso.
Continuo a acreditar que se nascemos a querer fazer uma coisa e se temos vocação para o fazer, não pode ser por acaso, não pode ser apenas para que sintamos de maneira mais intensa a dor de sermos contrariados e de termos que fazer exactamente o oposto.
E contínuo a acalentar a minha paixão. Secretamente, invencivelmente, às vezes mesmo quando, a razão me diz que tenho que desistir e de trilhar caminhos alternativos.
A minha paixão. A paixão de ensinar. A mesma que tenho desde o primeiro dia em que entrei na escola e que disse que era isso que queria fazer quando fosse grande. A mesma que povoou quase todas as minhas brincadeiras de criança, em que me imaginava professor dos vários níveis de ensino pelos quais ia passando.
Inexplicavelmente este sonho deixou de ser assumido a partir dos 8 ou 9 anos, quando passei a dizer que queria ser veterinário, e depois juiz. Mas interiormente, não me abandonou, e continuava a revelar-se nas brincadeiras e no entusiasmo com que aproveitava todas as ocasiões em que intervinha em público – normalmente em apresentações de trabalhos – para “dar uma aula”.
Entrei de facto em Direito. E foi na Faculdade que descobri que poderia conciliar a minha paixão de sempre pelo Ensino com o Direito, de que ia aprendendo a gostar: sendo professor universitário. Além do ensino, que sempre foi o que mais me atraiu, descobri novas perspectivas nesta carreira que me entusiasmaram: a investigação, a possibilidade de escrever livros (outro sonho antigo, mas este mais sob a forma de hobby) defendendo as minhas teorias sobre problemas concretos; a possibilidade de participar em congressos, fazer conferências e ter uma agenda sempre cheia de várias iniciativas onde quisessem contar com a minha presença. Todas diferentes, todas dinâmicas.
Falhei todos esses objectivos. Sistematicamente. Já adulto, por diversas vezes, as únicas oportunidades que me foram dadas foram para “brincar de ser professor” – em projectos certamente interessantes e em que adorei participar, mas que não correspondiam completamente à experiência do Ensino, em todas as múltiplas vertentes que só ele pode revelar.
Falhei sempre. E hoje estou a fazer aquilo que nunca pensei: num escritório obscuro (onde não sou sequer advogado) de uma entidade desconhecida, fazendo um trabalho irrelevante e esmagado por uma rotina de horários e de dias que sucedem uns aos outros, tão estupidamente idênticos, que nem os sinto passar.
Estou cada vez mais longe dos meus sonhos; e às vezes parece que oiço uma espécie de voz interior distante, vinda directamente do futuro e falando de mim na 3ª pessoa, a narrar o meu fracasso, a constatar que afinal passei ao lado de todos os meus sonhos e fiz um percurso completamente diferente daquele sonhava.
Mas apesar disso, continuo a sonhar. Continuo a sonhar mesmo sabendo que a linha que une os meus sonhos à possibilidade se tornarem realidade, é cada vez mais ténue e pode apagar-se a qualquer momento sem que possa fazer nada para o evitar.
Continuo a sonhar e a acreditar. A acreditar que não pode ser por acaso que tenho este sonho e que me sinto capaz de ser efectivamente o que desejo.
 
ricardomtj @ 21-09-2011 0:26:38, actualizado a 21-09-2011 10:36:39
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