Prosas
Antes. Depois. Se não houvesse tempo
Recordo com amor e saudade os meus tempos de criança, em que podia brincar, em que nada do que eu fazia tinha verdadeira maldade, em que passava horas no parque, ou até mesmo quando invadia o quarto dos meus pais e a sua cama porque tinha medo dos monstros que apareciam de noite.
Para além de recordar o meu passado como criança, imagino também como será o meu futuro. Se terei trabalho, que trabalho terei, como será a minha casa, se serei casada, se terei filhos, quantos serão. Tudo coisas eminentes do meu futuro. Oiço o meu relógio dar as onze cruciais badaladas, revelando-me que chegou a hora de dormir.
De repente, tudo muda. Acordo espantada com um toque suave e uma voz doce. Pelo tom de voz percebo que se trata da minha avó. Abro lentamente os olhos e espanto-me quando, ao olhar, observo que me encontro na minha antiga casa e no meu antigo quarto. Num tom baixo e suave, a minha avó diz-me para me despachar para irmos para a sua casa. Quando chegamos à casa da minha avó apercebo-me realmente que estou de regresso ao passado. Na mesa está o pequeno-almoço, no meu cantinho estão todos os meus bonecos, e lá fora o meu serviço de cozinhados espera para ser usado. Depois do almoço, embalo-me numa longa e saborosa sesta.
Quando acordo, olho para o lado e tenho um homem deitado na cama comigo. Fico um pouco espantada, mas rapidamente me apercebo que estou a viver aquilo que serei um dia. Enquanto me ambiento à casa e a tudo o resto, o telefone toca. No meu emprego precisavam de mim com a maior rapidez, tinha ocorrido um crime nos arredores da cidade e precisavam de um criminalista. No final do dia, regresso a casa de rastos pois o dia foi desgastante. À minha espera estão o meu marido e o meu filho, que todo contente me revela que tirou uma boa nota a ciências.
Depois do jantar e de arrumar a cozinha, vou deitar o meu filho. Fico durante alguns minutos observando-o enquanto ele adormece. Vou depois para o meu quarto e caio num profundo sono, como se já não dormisse há vários dias.
O despertador começa a tocar infernalmente, é hora de acordar. Olho à minha volta e apercebo-me que estou de volta ao presente. A minha viagem pelo passado e pelo futuro havia sido apenas um sonho, um óptimo sonho, que me recordou como é bom ser criança, mas também como é bom ser mulher e mãe. Foi uma viagem pelo antes e pelo depois da minha vida, como se o tempo puramente não existisse, como se apenas bastasse querer para acontecer!
 
pekenina @ 14-08-2008 20:39:18
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