Poemas
Acasos

O impossível não existe

Em tudo o que antecede a morte,

E a dificuldade é o elemento

Seleccionador dos que estão

Dispostos a lutar.



Falhar é um resultado provisório,

Vencer um ponto de partida

Para outras vitórias.



Tentar é o caminho para o sucesso,

Abdicar é desistir da vida,

Renunciar ao jogo

Sem conhecer os trunfos do adversário.



Morrer só é absurdo quando

Não se consegue verdadeiramente

Viver, quando só se existe,

Se permanece à espera que a morte venha.



A incoerência só é incoerência

Para os incoerentes,

Para os que desistem de a perceber,

E a clarividência não dispensa

A interpretação subjectiva,

A Leitura criadora do «eu».



Temer o futuro é abdicar

Da Suprema Possibilidade,

Repudiar o passado renegarmo-nos

A nós mesmos, e desmentir

O presente, cometer o pecado

Do desperdício.



O Todo só é importante

Se cada uma das partes o for,

E o impossível só se alcança

Quando não se dispensa nenhuma

Possibilidade.



O bem só se sente enquanto tal

Por oposição ao mal,

E a felicidade nunca é

Devidamente entendida,

Se não for precedida pela dor.



Se aqui falhas, além

Acertas, e se já acertaste

Não estás imune de erros,

No futuro, mas também não

Renunciaste em definitivo ao sucesso.



Existir não tem sentido,

O que tem sentido é viver.

E viver não é só mais do que

Existir.



Viver é ser útil,

Aos outros e a nós mesmos.

Viver é sermos solidários

Com os nossos sonhos,

E realistas com os erros.



A vida há-de continuar

A reconstruir aquilo

Que a morte derruba,

A refazer, a reencontrar

Sentidos novos,

Quando tudo parece perdido.



A morte, os sonhos, os projectos,

Os ódios e os afectos,

O passado e o futuro,

Todos hão-de continuar a ensinar

Ao Homem que não existe

Só por acaso.



Que tem algo para fazer

De si e do Mundo.

Que tem algo para mudar.

 
ricardomtj @ 08-08-2011 1:17:13
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