Prosas
AUTOPSIA
O desinfectante corrosivo enche as narinas dos presentes…

Sobre a mesa de aço inoxidável, um corpo imóvel, já sem cor, descansa solenemente.
Tinha tido vida, numa outra vida, e agora somente a morte, nada mais que a forçosa morte, abraçava aquele corpo.

Como abutre faminto o médico legista lança-se sobre corpo, do fatalmente morto, o bisturi rasga a pele, até á carne… um olhar metódico analisa o corpo centímetro a centímetro.

Ainda ontem, aquele, que repousa agora para sempre, era homem comum…
Tinha sonhos como eu, tinha aspirações a um futuro como eu, ria, sofria, amava, odiava… como eu! E agora, nada…

Após análise, profunda, detalhada, minuciosa… para grande espanto do médico, não tinha sido encontrada qualquer causa para a morte de aquele ser…
A morte sempre teve causas, mas nunca razões, e esta nem causa tinha…
Debruçados sobre a última cama de qualquer ser, especulações germinadas eram lançadas ao ar, pelos homens de bata branca que ladeavam o cadáver.

Mas não havia causas para a morte daquele humano ali estendido.
Mas que interessa? Estava morto…
Ninguém sabia quem era…
O que fazia…
Para onde ia…
Não interessa, não importa.

A importância de um homem sem nome é nenhuma, o valor que teve ou deixo de ter em vida não interessa, não importa realmente nada.
Não somos mais que a insignificância absoluta, e a morte é a verdadeira, e derradeira prova disso mesmo.

O corpo do desconhecido foi amortalhado, posto com desdém no interior vácuo da câmara frigorifica…

Dois dias volvidos e não havia familiares, amigos, conhecidos ou desconhecidos vestidos de negro em volta do caixão, ninguém o chorava, ninguém, o lembrava…

Triste e insignificante vida humana.
 
pseudo-poeta @ 06-02-2012 17:44:42, actualizado a 06-02-2012 17:50:20
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